A Síndrome de Tourette (ST) é um
distúrbio neurológico ou "neuro-químico" que se caracteriza por tiques
- movimentos abruptos, rápidos e involuntários - ou por vocalizações
que ocorrem repetidamente com o mesmo padrão.
Seus sintomas incluem:
1.
Tiques
motores múltiplos e pelo menos um tique vocálico precisam estar
presentes por algum tempo durante a doença porém não necessariamente
de forma simultânea;
2.
A
periodicidade dos tiques é muitas vezes ao dia (geralmente em salvas),
quase todo dia ou intermitentemente ao longo de pelo menos um ano;
3.
Há uma
variação periódica no número, na freqüência, no tipo e localização dos
tiques; também a intensidade dos sintomas tem um caráter flutuante. Os
sintomas podem chegar até a desaparecer por semanas ou alguns meses; e
4.
Início
antes dos 18 anos de idade
O termo "involuntátios", usado para descrever os
tiques da ST, é fonte de alguma controvérsia, pois que se sabe que a
maioria dos portadores consegue um limitado controle sobre seus
sintomas. Porém se sabe que este limitado controle, que se consegue
exercer durante alguns segundos ou até horas, se faz às custas de um
adiamento que resulta por fim em uma salva muito intensa dos tiques
que estavam sendo inibidos. Os tiques são vivenciados como algo
irresistível (como por exemplo a necessidade de espirrar) e que
precisa por fim se manifestar. As pessoas com ST muitas vezes procuram
um local escondido para dar vazão a seus tiques após tê-los inibido a
duras penas na escola ou no trabalho. É típico dos tiques serem
exacerbados (porém não causados) por estresse e diminuirem com o
relaxamento ou com a concentração em uma tarefa aprazível. Os
indivíduos lutam não só contra a doença em si mesma, mas também contra
o estigma social de que são vítimas.
P: Como se classificam os tiques?
R: Há duas categorias de tiques na ST e eis alguns exemplos:
Simples:
Motores - Piscar os olhos, repuxar a cabeça, encolher os
ombros, fazer caretas;
Vocais - Pigarrear, limpar a garganta, grunhir, estalidos com a
língua, fungar e outros ruídos
Complexos:
Motores - Pular, tocar pessoas ou coisas, cheirar, retorcer-se
e, embora muito raramente, atos de auto-agressão, tais como
machucar-se ou morder a si próprio;
Vocais - Pronunciar palavras ou frases comuns porém fora do
contexto, ecolalia (repetição de um som, palavra ou frase de há pouco
escutados) e, em raros casos, coprolalia (dizer palavras ou expressões
socialmente inaceitáveis; podem ser insultos, palavras de baixo calão
ou obscenidades). A margem de expressão de tiques ou sintomas
assemelhados na ST é imensa. A complexidade de alguns sintomas
freqüentemente surpreende e confunde os familiares, amigos,
professores e empregadores que dificilmente acreditam que as
manifestações motoras ou vocais sejam "involuntárias".
P: As pessoas portadoras de ST apresentam outros distúrbios além dos
tiques?
R: A freqüência de distúrbios associados ainda é um ponto controverso
entre os especialistas porém alguns dos portadores de ST podem ter
problemas adicionais tais como:
Obsessões - representações, idéias ou pensamentos repetitivos,
indesejados ou incômodos.
Compulsões - comportamentos repetitivos, freqüentemente ritualizados
em que o indivíduo tem a sensação de que algo precisa ser executado de
uma forma muito específica e correta, e novamente. Exemplos incluem
tocar um objeto com uma mão e depois com a outra para que "as coisas
permaneçam iguais", ou checar repetidas vezes se a chama do fogão está
apagada. As crianças costumam pedir aos pais que repitam uma sentença
muitas vezes até que "o som fique certo".
Transtorno de Déficit de Atenção (com ou sem Hiperatividade) ou
Transtornos Hipercinéticos - As crianças podem apresentar sinais de
hiperatividade antes do surgimento dos sintomas da ST. Indícios do
transtorno de hiperatividade e déficit de atenção podem ser:
dificuldade de se concentrar, não conseguir completar as tarefas
iniciadas, dar a impressão de que não escuta o que se lhe é dito,
distrair-se facilmente, agir de forma intempestiva, frustar-se ou
desistir facilmente, pular constantemente de uma atividade para outra,
necessitar de muita supervisão para levar a cabo uma tarefa ou uma
inquietação generalizada. Os adultos podem exibir sinais de TDAH tais
como comportamento francamente impulsivo, dificuldades de concentração
e necessidade de mover-se constantemente. Transtorno de déficit de
atenção sem hiperatividade inclui todos os itens citados anteriormente
exceto pelo alto grau de atividade.
Transtornos Específicos do Aprendizado - em alguns casos podem estar
presentes, tais como dislexia, dificuldades à escrita ou leitura, ou
problemas na integração visual-motora.
Problemas reativos - resultantes das dificuldades diárias enfrentadas
como estigmatização, baixa auto-estima proveniente dos sintomas,
dificuldades de atenção acarretando baixo rendimento acadêmico, são
fatores que podem levar a estados depressivos
Distúrbios do sono - podem ocorrer como sonambulismo, dificuldade em
conciliar o sono ou despertares freqüentes.
Dificuldade em controlar os impulsos - que pode resultar em
comportamentos impróprios, explosivos ou excessivamente agressivos.
P: Quais são os primeiros sintomas?
R:A maioria das vezes o primeiro sintoma que aparece é um tique
facial, como por exemplo piscar muito rápido dos olhos ou torções da
boca. Todavia, sonorizações involuntárias, tais como pigarrear ou
fungar, ou tiques afetando os membros podem também ser os sintomas
iniciais. Em alguns casos o distúrbio irrompe abruptamente com
múltiplos sintomas de movimentos anômalos e tiques vocais.
P: Qual a causa dos sintomas?
R: A causa não foi ainda definitivamente encontrada, mas as pesquisas
atuais mostram forte evidência de que o problema se origina de
anomalias metabólicas de pelo menos um neurotransmissor cerebral
chamado dopamina. Provavelmente outros neurotransmissores, tais como
serotonina também estão implicados em sua gênese
P: Como se diagnostica ou identifica a ST?
R: O diagnóstico se faz observando-se os sinais e sintomas e pelo
histórico do surgimento dos sintomas. Nenhum exame de sangue ou de
imagem ou de qualquer outro tipo estabelece o diagnóstico de ST. No
entanto o médico pode solicitar alguma investigação complementar (EEG,
tomografia ou certas análises sangüíneas) para descartar outras
doenças raras que em um caso específico pudessem estar presentes e
expressar sintomas semelhantes aos da ST.
P: É hereditária?
R: Há estudos genéticos mostrando que os distúrbios de tiques,
incluindo ST, são herdados como gen ou genes dominante(s) com a
capacidade de produzir sintomatologia variada nos diversos membros da
família. O indivíduo portador de ST tem uma chance de cerca de 50 por
cento de transmitir seu gen ou genes à sua prole. No entanto este gen
ou genes podem se expressar como ST, ou uma síndrome de tiques
bastante leve, ou como um transtorno obsessivo compulsivo sem
expressão de tiques de espécie alguma. Sabe-se que a incidência de
tiques leves e manifestações obsessivo compulsivas é mais elevada
entre os familiares dos pacientes com ST. O sexo da criança também
influencia a expressão do gen ou genes. A chance de que o filho de um
portador de TS venha a ter o mesmo distúrbio é pelo menos três vezes
maior para os filhos do sexo masculino. Todavia somente uma minoria
das crianças que herdam este gen ou genes manifestarão sintomas cuja
gravidade tornará imperiosa a assistência médica. E há casos de ST em
que não se identifica hereditariedade; são casos designados como ST
esporádica pois que não se pode estabelecer vinculação genética.
P: Existe cura?
R: Ainda não.
P: É possível uma remissão dos sintomas?
R: Remissão pode ocorrer a qualquer instante. Os dados atualmente
disponíveis sugerem que os tiques tendem a estabilizar-se e a ficar
menos intensos na idade adulta. As pessoas diagnosticadas têm o mesmo
tempo de vida que as pessoas sem a síndrome.
P: Como se trata a ST?
R: A maioria das pessoas com ST não é prejudicada de forma
significativa pelos sintomas e por conseguinte não necessitam de
tratamento medicamentoso. No entanto, existem medicações eficazes que
auxiliam no controle dos sintomas quando estes prejudicam a vida do
paciente. Exemplos de fármacos úteis são haloperidol, pimozida,
clonidina, clonazepam. Estudos recentes apontam a utilidade de novas
drogas como risperidona e paroxetina como eficazes no manejo do
componente impulsivo. Drogas como metilfenidato ou dextroanfetamina
prescritos para hiperatividade podem ser prescritos com cautela.
Sintomas obsessivo-compulsivos podem tratar-se com clomipramina ,
fluoxetina e outras medicações semelhantes.
A dose necessária para se obter o melhor controle possível é
individual e varia para cada paciente e precisa, portanto ser
meticulosamente monitorizada pelo médico. O medicamento é administrado
em pequenas doses com aumentos graduais até que se atinja o máximo
alívio de sintomas com o mínimo de efeitos colaterais. Algumas reações
adversas à medicação podem ocorrer eventualmente tais como fadiga,
inquietação motora, ganho ponderal e retraimento social, sendo que a
maioria destas reações podem, por sua vez, serem controladas com
outras medicações específicas. Outros tipos de efeitos colaterais que
por vezes aparecem como depressão ou prejuízo cognitivo podem ser
aliviados com redução ou substituição da medicação.
Outras modalidades de terapia também são úteis. Por vezes a terapia
pode ajudar o indivíduo portador de ST e auxiliar sua família a lidar
com os problemas psicossociais que acompanham a ST. Algumas técnicas
cognitivo-comportamentais podem facilitar a substituição por um tique
mais aceitável. O uso de técnicas de relaxamento ou biofeedback podem
ser úteis durante períodos prolongados de estresse intenso.
P: Os alunos com ST têm diferentes necessidades educacionais?
R: Os estudantes com ST têm QI igual ao das outras crianças e a
maioria deles tem bom desempenho acadêmico numa classe normal para sua
idade. Algumas crianças poderão necessitar de um apoio educacional
especial. Alguns alunos que possuem certos transtornos de aprendizado
que, combinados com o transtorno de déficit de atenção e com as
dificuldades inerentes de ter de lidar com tiques freqüentes podem
requisitar uma atenção pedagógica mais intensa. Algumas crianças podem
requerer supervisão individual em uma sala de estudos, por exemplo. Ou
ainda exames orais quando os sintomas da criança interferem em sua
capacidade de escrever. O uso nestes casos de gravadores, máquinas de
escrever ou computadores para os distúrbios da leitura e da escrita
(nos raros casos em que estes estiverem presentes no quadro clínico),
provas e exames sem limite de tempo (particularmente úteis quando as
salvas de tiques atrapalham a adequação ao tempo limite para responder
às perguntas), provas em aposento à parte (quando os tiques vocais
estiverem intensos e atrapalhando o curso da prova) ou permissão para
sair da sala para aliviar-se da salva de tiques. Todas estas medidas
pedagógicas são simples de se executar e resolvem muitas dificuldades
práticas. Todos os estudantes com síndrome de Tourette precisam de um
ambiente compreensivo e tolerante, que os encoraje a trabalhar para
atingirem todo seu potencial e que seja flexível o bastante para
atender suas necessidades específicas.
P: É importante tratar a Síndrome de Tourette precocemente?
R: Sim se os sintomas são perturbadores ou assustadores. Os sintomas
retratados podem provocar rejeição e ridículo por parte de colegas,
vizinhos, professores e até observadores ocasionais. Os pais podem se
sentir arrasados pelo caráter inusitado do comportamento de seu filho.
A criança corre o risco de ser ameaçada, excluída das atividades
familiares e privada de se envolver nas atividades e relacionamentos
corriqueiros de sua faixa etária. Tais dificuldades tendem a aumentar
na adolescência, um período muito especial na vida dos jovens e mais
ainda na de uma pessoas que luta contra as dificuldades de uma doença
neurológica. O diagnóstico e tratamento precoces são recomendáveis
para evitar ou minimizar danos psicológicos.
P: A ST chega a afetar a escolha da profissão do indivíduo?
R: Algumas raras vezes a ST prejudica a escolha da profissão. Não
podemos nos esquecer de que a maioria dos pacientes são portadores de
formas leves da ST. Entrementes um número crescente de portadores de
formas moderadas ou até mais intensas da ST vêm obtendo sucesso
profissional nas mais diversas áreas como medicina, engenharia,
direito, jornalismo, esportes e ciência da computação. Muitos outros
estão sendo treinados com sucesso em centros universitários em áreas
técnicas e de comércio.
P: Como surgiu o nome da Síndrome de Tourette?
R: Em 1825 o primeiro caso de ST foi relatado na literatura médica
pelo Dr. Itard. Foi a descrição do quadro clínico da Marquesa de
Dampierre, cujos sintomas incluíam tiques involuntários afetando
muitas partes do corpo e vários tiques complexos incluindo ecolalia e
coprolalia. Ela viveu até a idade de 86 anos e foi novamente descrita
em 1883 pelo Dr. Gilles de la Tourette, neurologista francês a partir
de quem a síndrome foi nomeada. Várias pessoas de destaque na história
da humanidade foram portadores da síndrome como por exemplo André
Maulraux, o famoso escritor francês e Samuel Johnson, uma das mais
brilhantes figuras da literatura inglesa do século dezoito.
P: Quantas pessoas são afetadas pela Síndrome de Tourette?
R: Não há uma resposta definitiva pois existem muitas pessoas
portadoras da ST que não são identificadas. Estudos genéticos recentes
sugerem que a cifra talvez seja uma pessoa a cada duzentas se na
contagem forem incluídos os distúrbios de tiques crônicos e
transitórios.
P: Quais são as linhas de pesquisa atuais?
R: Recentemente o interesse tem sido o estudo sobre os mecanismos
pelos quais o distúrbio se transmite de uma geração a outra e os
pesquisadores estão tentando localizar o marcador genético da ST. Um
grupo cooperativo internacional de cientistas formou uma rede única
que compartilha e executa um trabalho de pesquisa conjunta sobre a
genética da ST. Informação científica adicional será obtida a partir
de estudos de grandes famílias com numerosos membros afetados pela ST.
Ao mesmo tempo os investigadores continuam a estudar grupos
específicos de neurotransmissores para entender melhor a síndrome e
desenvolver tratamentos novos e aperfeiçoados. Outra linha de
investigação é a identificação de subgrupos dentro da ST.
P: Existem sociedades ou grupos de apoio aos portadores e familiares?
R: Durante o I Encontro Pró-Astoc, realizado nos dias 25 e 26 de maio
de 1996, foi criada a Associação de Pacientes com Síndrome de Tourette,
Tiques e Transtorno Obsessivo-Compulsivo, que contou com a presença da
ex-presidente da Tourette Syndrome Association, Sue-Levi Pearls, dos
Estados Unidos da América. Esta entidade tem o objetivo de divulgar e
informar aos médicos e pacientes sobre a patologia, arrecadar doações
para a formação de um fundo de pesquisa que atenda às necessidades e
interesses dos próprios pacientes como, por exemplo, na área
psicossocial. Uma outra área em que a ASTOC atua é no campo de
orientar professores e educadores, além de proteger os interesses dos
alunos portadores destas síndromes. Os encontros promovidos pela ASTOC
permitem a troca de idéias e sentimentos sobre os problemas comuns aos
pacientes e familiares. Uma dificuldade enfrentada é identificar se um
determinado comportamento seria uma expressão da ST (ou do Transtorno
Obsessivo-Compulsivo) ou tão somente um comportamento manipulativo sem
relação com os sintomas em si, e como agir frente a isso. As crianças
devem ser encorajadas a controlar os comportamentos socialmente
inaceitáveis sempre que possível e a tentar substituir as condutas
inaceitáveis por outras socialmente aceitáveis.
A
matéria deste artigo será atualizada a cada avanço do conhecimento
científico
O
presente artigo foi traduzido e adaptado pelo Dr. José Carlos Ramos
Castillo a partir do texto presente na homepage da Tourette Syndrome
Foundation of Canada (www.tourette.ca)
http://www.mtecnetsp.com.br/toc/