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A construção de um novo rumo da Terapia Ocupacional

                                        
*Trabalho apresentado no III Encontro de Fisioterapeutas e Terapeutas
Ocupacionais em Santa Catarina-2003.



Para estar aqui neste encontro hoje só foi possível, na medida em que
me propus a compartilhar meus conhecimentos com os conhecimentos de
todos vocês, na construção de um novo rumo da Terapia Ocupacional.

Para tanto, foi necessário reunir tantos outros saberes, de tantos
pensadores que percorreram caminhos também para a construção de
conhecimentos, e que felizmente contribuíram historicamente com o que
fomos, somos e possivelmente  seremos.

Acredito que o futuro sempre será resultado da relação entre o
passado e o presente, e de como esta relação pode ser vivenciada em
termos de crescimento e desenvolvimento.

Portanto, convido a todos para uma viagem histórica com assentos
garantidos para um futuro que só depende de nossa consciência
enquanto terapeuta ocupacional.

Todos nós sabemos que o homem pensa, progride, e que pode agir
livremente; entretanto tende a negar o que é invisível ou o que não
seja percebido pelas sensações, não se dando conta que sua
existência  está na sua consciência, uma consciência intencional.
(A intencionalidade da consciência significa que toda consciência é
não somente consciência, mas também consciência de alguma coisa,
implicando numa relação intrínseca com o objeto.)

A consciência é o sustentáculo das operações vitais do homem, o
que faz com que  viva, sinta, se locomova, e entenda; uma realidade que
subsiste por si só, imaterial, espiritual, e que necessita de uma
causa, que explique essencialmente a existência do homem.

Tal causa não deve ser algo simplesmente acidental ou superficial, pois
o sentimento, a vontade, a inteligência são realidades profundas e que
caracterizam o ser humano como uma criatura peculiar, especial.

? A existência do Eu como sujeito de todos os atos do indivíduo é
um fato experimentado pela própria consciência do sujeito.?

  (GIRARDI,1988,25)

Pensar em Terapia Ocupacional é antes de tudo definir nossa visão de
homem, enquanto existência, o que representa uma tarefa que exige
conhecimento; e quanto mais os homens conhecem o homem, mais temerária
se torna a tentativa de definição.

É em razão disso que Gabriel Marcel se refere ao homem como
?mistério?; e Sartre,  que ?o homem não é o que é, pois ele
é o que não é?, o homem está sendo; é no que ele é capaz de ser
e não meramente no que ele é.

O homem é um ser pensante, co-criador, e transformador de sua
realidade.

O auto conhecimento é possível à partir da convivência com o outro,
pois viver é radicalmente conviver.  Viver, é  ser para-o-outro e
com-o-outro.

O homem comporta-se à partir da racionalidade, o que lhe permite a
condição de auto-determinação, enfim, de ser livre. Entretanto,
essa liberdade está condicionada a um processo de maturação, no qual
sua manifestação é exercida gradativamente, conforme o
desenvolvimento da razão.

?eu sou livre de tudo...exceto de não ser livre.Portanto eu estou
condenado a ser livre.?

(SARTRE)


?O homem livre quer dizer, aquele que ouve apenas segundo os conselhos
da razão, não é dirigido na sua conduta pelo temos da morte, mas
deseja diretamente o bem...?.

(ESPINOSA)

A liberdade, aquela que captamos em nós, é a consciência da ação
exercida por uma idéia, a saber, a idéia do máximo de independência
que sob a dupla relação da causalidade e da finalidade, pode atingir o
eu que concebe o universal.

A liberdade é a imunidade de vínculos ou marcas; podendo ser física
quando dirigida aos movimentos e deslocamentos, moral quando envolve as
questões legais,e, psicológica ou pessoal, também chamada de
livre-arbítrio, ao permitir tomar decisões ou escolhas conforme sua
vontade, inteligência  e intencionalidade.

Pensando, o homem faz, realiza, transforma e busca um rompimento com
aquilo que traz em si, abrindo-se para a transcendência.

O pensamento é condicionado pela ação, a vida não consiste apenas em
pensar logicamente, mas também em agir.

KANT reconheceu que o homem pode utilizar seu intelecto ? sua razão,
não apenas como receptor de impressões mas como criador de idéias
? a faculdade de pensar.

Quando o homem desperta para o conhecimento, passa a construir uma
trilha infinita, onde se volta para sua interioridade para
desvendar-se, e para exterioridade para relacionar-se com a realidade
circundante, integrando-se nela e na realidade de seu ser.

Então, percebe que os horizontes de sua liberdade dependem dos
horizontes do seu conhecimento. A garantia do conhecer está na
intencionalidade da busca da verdade. A vida humana é essencialmente
ação.

O  ato de refletir e o valor do conhecimento são legitimados através
da atitude.Toda ação é efeito, então, estando o ato de refletir
relacionado com o ato de pensar, é a atitude pensada na verdade que
qualifica o conhecimento, e não a simples e conseqüente ação
motora.

O ser humano desenvolve sua vida em plenitude através da ação. O
conhecimento só tem razão de ser na medida em que estimular a
atividade, a ação na linha da utilidade.

Ao buscar o futuro, algumas questões são importantes:

Por onde têm caminhado os terapeutas ocupacionais?

O que têm aprendido e o que nos ensinam dessas experiências?

Quem ensina a quem?

Embora tenha sido no início do século XX seu surgimento formal, no
período entre 1950 e 1960,  permeava a prática reabilitadora da
atenção terciária, na qual a Terapia Ocupacional agia isoladamente;
somente entre as décadas de 60 e 70, a profissão de Terapia
Ocupacional foi reconhecida como de nível superior, num contexto de
importantes mudanças.

Segundo Michelle Hahn, a Terapia Ocupacional nesses 20 anos, passou por
um processo  significativo de mudanças, o qual representou o
deslocamento de um espaço restritamente de ambiente hospitalar de
atenção aos pacientes crônicos, para a integração em equipes
multiprofissionais de manutenção e prevenção nos locais de
atenção secundária de cuidados a saúde, como ambulatórios de
saúde mental, centros de saúde, hospital-dia, centros de atenção
psicossocial, centros de convivência, etc.

Desta forma, foi possível, juntamente com outros profissionais,
construir uma nova terminologia para aquele que recebia os cuidados em
saúde : os pacientes de ontem, passaram a clientes e usuários.

Um outro dado importante refere-se ao acréscimo do contexto da
educação, onde foi possível viabilizar um programa de atenção,o
qual visava integrar pressupostos teóricos para configurar-se em um
programa de saúde, com ações e intervenções de natureza educativa
e de aconselhamento.

Inicialmente era como ?técnico em laborterapia?, que atuava  no
?emprego cientifico de qualquer  tipo de ocupação ou trabalho, na
reabilitação do incapacitado?, para posteriormente passar a
denominar-se de terapeuta ocupacional  , se tivesse diploma do curso de
Terapia Ocupacional.

A Reforma Universitária, fez com que alguns estabelecimentos
prestadores de serviços em Reabilitação perdessem sua autonomia, e
fossem integrados as unidades hospitalares e/ou desativados, permitindo
com isso uma reformulação do curso de Terapia Ocupacional.

Segundo DE CARLO (2001,35) a década de 70, representada por uma
necessidade de abertura e democratização, e crescimento dos
movimentos sociais, poderia ser considerada uma fase de grande
aquecimento e fortalecimento, para a busca de definições,
especificidades e construção da identidade da Terapia Ocupacional.

Alguns estudiosos como Fidler & Fidler, Azima &  Azima, Mosey, Ayres,
Reilly, Kielhofner, entre outros,contribuíram na produção cientifica
inovadora da Terapia Ocupacional.

Outros estudiosos, terapeutas ocupacionais, tão importantes quanto os
já citados, deram significativo impulso à Terapia Ocupacional com
suas defesas cientificas e profissionais, refletindo no
desenvolvimento de  novas formas de olhar e de atuar, assim como na
fomentação de novos campos de trabalho.

Para LANCMAN (1995, 58) os anos 80 foram marcados profundamente pelo
conflito gerado com a falta de sistematização do conhecimento e a
conseqüente indefinição de identidade da Terapia Ocupacional.

Este movimento contribuiu para o repensar de praticas e concepções
envolvendo a atividade e sua terapeuticidade, contra ?uma ocupação
esvaziada de significado e distanciada das necessidades reais dos
pacientes?.

A busca de desmistificação do uso terapêutico da atividade, na
tentativa de elaborar novos conceitos ideológicos, resultou no
desenvolvimento da  idéia da atividade como recurso terapêutico da
Terapia Ocupacional, passando a significar que toda intervenção
estaria dirigida para o individuo e seu grupo social, possibilitando-se
condições de bem-estar e autonomia.

Os anos 90, caracterizaram-se basicamente, pela procura de
especializações e cursos de pós- graduação que subsidiassem a
prática clinica; conseqüentemente com a formação crescente de
pesquisadores e professores de ensino superior, deu-se lugar um novo
perfil de profissional e campo de atuação.

Segundo Lancman, os terapeutas ocupacionais, embora apresentassem um
perfil mais técnico e voltado para a clinica, passaram a ampliar seus
horizontes galgando espaços como criadores e transformadores dos
sistemas de saúde onde estavam inseridos. Este movimento representou a
busca pela produção e sistematização de conhecimentos.

Esta fase refletiu ainda uma somatória de mudanças e ampliações no
campo de trabalho da Terapia Ocupacional, como resultado dos seus
avanços e a contextualização institucional em saúde, educação e
pesquisa.

Desde então, a apropriação de teorias e metodologias de outras áreas
de saber têm sido realizada visando adaptá-las e/ou adequá-las as
necessidades de construção de um referencial próprio e urgente, para
um relacionamento de igualdade com a ciência.

Mesmo considerando o surgimento de novas necessidades e especificidades,
é importante manter o nível de reflexão em desenvolvimento sobre o
corpo de conhecimentos que no momento compõe a formação do terapeuta
ocupacional, para que o curso do pensar  possa expressar-se
diferentemente  de ?dentro? para o exterior.

Embora a conjuntura política-social e econômica não permitir grandes
perspectivas, o mercado se mantem em processo de ampliação contínua,
quando flexibiliza os perfis profissionais.

Para MAXIMINO, a pouca clareza relativa a definição da Terapia
Ocupacional, poderia possibilitar uma prática mais criativa e
identificada com o profissional e sua realidade. Neste aspecto,torna-se
necessário identificar os instrumentos necessários para responder as
exigências de um mercado, que busca um profissional ágil e
?multi?, ao mesmo tempo em que terceriza serviços especializados.

Este panorama dá lugar a alguns questionamentos relativos a:

·  capacitação do terapeuta ocupacional, na organização e
prestação de serviços;

· qualidade de serviço

É fundamental, portanto, o dialogo com o fora. Fora de si mesmo, fora
do hospital, fora do consultório de atendimento, fora das formas e
configurações já existentes. A verdadeira prática clínica tem que
pensar a inserção do indivíduo no mundo e o diálogo constante entre
as formas vigentes e as que estão sendo engendradas.

Para Lima (1997,100), o trabalho da Terapia Ocupacional, um dia chamado
de reabilitação, perpassa  atualmente por diversos paradigmas, para
alcançar uma clínica também contextualizada, onde se faz necessário
repensar sempre o constante transitar entre interno e externo,dentro e
fora, individual e coletivo, sujeito psíquico e representações
sociais, trabalho de estruturação do sujeito e trabalho de
reinserção social.          Em a ?vida é atividade, princípio que
rege tanto a vida corporal como a mental, dado que o homem nunca
permanece sem fazer nada; senão faz algo útil, faz algo inútil?,
segundo Francisco (1990,35), é possível entender que o homem é
dotado de uma natureza ocupacional, o que caracterizou-o como detentor
ativo de potencial de construção e transformação de sua realidade,
portanto, qualquer mudança ou situação que venha trazer algum
prejuízo ou disfunção ao homem, pode ser  considerado como
conseqüência da ausência ou comprometimento de atividade ou
ocupação, através das atividades relacionadas ao trabalho, de vida
diária, de vida prática e de lazer.

É possível então perceber que quando o homem encontra-se numa
situação de harmonia e equilíbrio de sua realidade, fazendo uso
ativo de seu tempo-espaço, ele responde a uma manifestação de
qualidade de vida e saúde.

A atividade humana, é a atividade da consciência, resultado da
relação entre a reflexão e a ação, mediados pela intencionalidade,
vontade, e liberdade.

Para DE CARLO (2001,47) ? as atividades humanas são constituídas por
um conjunto de ações que apresentam qualidades, demandam capacidades,
materialidades e estabelecem mecanismos internos para sua realização.
Elas podem ser desdobradas em etapas, configurando um processo na
experiência da vida real do sujeito. A linguagem da ação é um dos
modos de conhecer a si mesmo, de conhecer o outro, o mundo, o espaço e
o tempo em que vivemos, e a nossa cultura. São elas que darão forma e
estrutura as fazer dos sujeitos,..., estabelecendo um sistema de
relações que envolve a construção da qualidade de vida
cotidiana.?          E a qualidade de vida cotidiana, nada mais é
que a percepção subjetiva do sujeito sobre seu bem estar e sua
condições de vida.

O cotidiano não é rotina, nem a mera repetição automata de
movimentos ou ações que levem um fazer por fazer. O cotidiano,
segundo FRANCISCO (1988,86) é o espaço próprio onde o sujeito busca
praticar sua atividade criativa e transformadora. É o espaço social
que o sujeito ocupa, vive.

Ao longo destes quase últimos 40 anos, a construção de concepções e
campos de trabalho da Terapia Ocupacional, têm fortalecido não só as
novas definições relativas a sua identidade, como permitido a
delineação de novos campos de trabalho, sem perder de vista o
contexto sócio-histórico e cultural.

Em todo esse percurso, o terapeuta ocupacional foi obrigado a acompanhar
os diferentes e crescentes movimentos de mudanças e transformações
que o levam a uma nova forma de olhar da Terapia Ocupacional.

É num perfil de multidimensionalidade que a Terapia Ocupacional vem se
inserindo para responder as demandas decorrentes da dinâmica cinética
ocupacional  refletida pela atividade humana.

Possivelmente, este perfil de multidimensionalidade venha permitindo, e
permitirá sempre ao terapeuta ocupacional, a oportunidade de perceber
e interagir numa diversidade de ações e contextos, desde a tecnologia
que acompanha os avanços científicos até as intervenções
comunitárias, sempre centrando sua busca na garantia de qualidade de
vida cotidiana.

Entretanto, embora se possa estar vivenciando uma diversidade de
propostas e diferentes realidades socioculturais, as desigualdades e
diferenças também permeiam a intervenção da Terapia Ocupacional, na
medida em que se convive com um confronto entre o momento histórico de
extremo avanço tecnológico, com acesso limitado para alguns
personagens da humanidade, e  a luta pela aquisição de recursos
básicos de sobrevivência com dignidade.

A Terapia Ocupacional, manifestada por terapeutas ocupacionais, precisa
estar ciente desta realidade - desde quando é a atividade humana e a
consciência de saber fazer, que justificam sua ação,  para que possa
  intervir estabelecendo condições de relações sociais mais justas,
assegurando através de suas ações a qualidade de vida para o
indivíduo.

As perspectivas para a  Terapia Ocupacional, estão voltadas para o
desenvolvimento  de ações respaldadas em pesquisas científicas, pela
consolidação , e principalmente pela socialização, de seus saberes.
        Conta-se atualmente com 32 cursos de Terapia Ocupacional no
Brasil, e ao contrário do que se possa pensar, não é a
multiplicação de cursos que vai garantir qualidade de formação
acadêmica.

Atualmente, a Terapia Ocupacional  compõe as equipes de diversos
programas de saúde, conforme as inúmeras portarias ministeriais,
abrangendo contextos da saúde mental, transplante de medula, programa
canguru, saúde do trabalhador, programas para portadores de
deficiências, etc., mas ainda não corresponde em toda a plenitude das
demandas sociais.

A produção cientifica têm representado significativa ampliação de
suas fronteiras, permitindo aos profissionais, mais acesso na
comunidade científica, porém não se tem muito claro a qualidade da
formação acadêmica e a expansão e/ou socialização de
conhecimentos.

É uma condição vital para a Terapia Ocupacional, que o mercado conte
com profissionais mais éticos, críticos e atentos à sua realidade,
compromissados com o desenvolvimento de conhecimentos e com o
incremento da profissão, para bem além do tão antigo e já
descolorido jargão do ?conflito de identidade? .


REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DE CARLO,Marysia M.R.Prado. & BARTALOTTI,Celina C. Terapia Ocupacional
no Brasil:fundamentos e perspectivas,Plexus,São Paulo,2001.

FRANCISCO,Berenice Rosa. Terapia Ocupacional. Papirus,Campinas,1988

GIRARDI,Leopoldo Justino. Filosofia.Acadêmica,Porto Alegre,1988.

GOBBI, Sérgio Leonardo. & MISSEL, Sinara Tazz. Abordagem centrada na
pessoa: vocabulário e noções básicas, Ed.Universitária, UNISUL,
Tubarão,1998.

HAHN,Michelle Selma. Promoção da saúde e terapia ocupacional. Revista
do Centro de Estudos de terapia Ocupacional, vol.1,nº 1,p.10-13, São
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LANCMAN,Selma.O lugar da terapia ocupacional hoje, seu corpo de
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LIMA, E.A. Terapia Ocupacional: um território de fronteira?
Rer.Ter.Ocup.Univ.São Paulo ,v.8  n.º2/3, p.98-101, maio / dez.1997

MAXIMINO,V.S.Novos desafios para a terapia ocupacional.
Rev.Ter.Ocup.Univ.São Paulo,v.8 n.º2/3, p.61, maio / dez.1997

MEDEIROS,Maria Heloisa da R. Editorial.Cad.de Terapia Ocupacional da
UFSCar,ano IX vol.9 nº 1, São Paulo, janeiro/junho/2001
 

Patricia Moreira Bastos
patriciam.bastos@terra.com.br